O ‘para sempre’ acaba? Uma reflexão.

Osasco, 25 de Março de 2016.

¨Eu sou uma usuária intensa das redes sociais. Sou mais dependente do que gostaria de ser, ainda assim acredito que essas ferramentas têm o poder de aproximar e afastar pessoas,  em igual medida, na mesma proporção. É uma socialização, mas é também o seu avesso revirado.

Através das redes sociais consigo manter contato com uma quantidade grande de pessoas, algumas que conheci pessoalmente, algumas que quero conhecer pessoalmente e outras tantas que a relação se dá no ambiente no eletrônico apenas e assim será e o que particularmente eu não considero pouco. Também teve as incontáveis pessoas que descobri através das redes sociais que o melhor seria me afastar, principalmente nos casos em que as crenças dessa gente colocava em risco a minha existência e/ou colocava em risco a existência de gente como eu. Mas como poderia me chamar de amiga, visitar a minha casa e apoiar pastor que demoniza o que eu sou e que tem prejudicado sistematicamente a vida de pessoas como eu? Como pode se dizer meu amigo e apoiar político-pastor que quer me ver literalmente ardendo na fogueira? Como?

Com isso, em minhas redes sociais mais pessoais (as que desenvolvi uma relação mais íntima) eu tenho reduzido drasticamente o número de pessoas e interação, que é o reflexo da minha vida real, além de bits, bytes, gigas e terabytes. Comungo aqui da ideia de Bauman sobre o conceito de amizade que se conta em uma mão, embora eu seja afortunada e tenha a chance de escapar um pouco disso. Eu sou uma pessoa sozinha, sou uma pessoa que precisa ficar sozinha e embora eu aprecie a companhia das pessoas em alguns momentos, eu aprecio também o estar sozinha. Fazendo uma mea culpa, eu preciso do meu casulo na maior parte do tempo e por isso os hiatos.

Então, através das redes sociais se repete o “vamos marcar de se ver” que nunca vai acontecer. Criam-se grupos com a intenção de um encontro que também não vai acontecer. Por muito tempo eu me odiava pela minha incapacidade de comparecer em todos os compromissos. Odiava-me por não responder as mensagens que recebia. Queria ser mais presente, queria ser mais disponível, queria ter mais dinheiro para fazer tudo isso sem a preocupação com nada além disso (a parte do dinheiro eu gostaria de escrever paralelamente em outro texto, já que tem sido uma escolha minha viver assim como tenho vivido). Depois fui descobrindo que isso é um hábito que se espalhou e não era somente eu, éramos nós, o nosso tempo, as relações tinham se tornado isso. Oxalá se fosse somente eu, uma terapia quem sabe resolvesse, mas é o mundo.

Então, era meu amigo que não me respondia a mensagem, era a amiga que não comparecia no almoço que marcamos, era o namorado da amiga que respondia por ela, o que considero um desrespeito tamanho, mais do que não responder, terceirizar as respostas em certas situações… Repetidamente amigas e amigos reclamam que fulano sumiu, que fulano não respondeu, que ciclana disse que iria e não foi… Passei a ir em alguns encontros e sempre faltava um punhado de gente que deu certeza que ali estaria e pensava com mais horror do que alívio que realmente não era apenas eu. É isso o que nos tornamos?

É bem verdade que eu – bem antes das redes sociais serem como são agora -, já estava exausta de tentar promover encontros de pessoas que embora demonstrassem um querer em estar juntas, a vida já tinha mudado tanto que não cabia mais, a prioridade já era outra, a disponibilidade também e é preciso maturidade para reconhecer e entender isso, eu particularmente ainda estou aprendendo e amadurecendo nesse sentido. Pessoas vêm e pessoas vão, embora a gente queira que elas permaneçam para sempre como em nossas melhores recordações, isso nem sempre se realiza. Não consegui vencer o cansaço das constantes ausências e desisti de seguir gastando minha energia com coisas assim, fadadas às ausências e posteriores desculpas. É impossível reunir pessoas que não querem mais ser reunidas, pois mais que digam o contrário. Eu também me tornei ausência.

Assim, passei a estar com quem aquele momento da vida me permitia estar, sem a culpa, sem a cobrança e apenas desfrutando daquele momento. Estando. Que eu bem sei que poderia se repetir para sempre ou não, pois a vida segue mudando e com isso as prioridades, disponibilidades, etc, etc, etc… “O pra sempre, sempre acaba” dizia a canção e que certa vez enviei em carta para minhas amigas e amigos na adolescência, tempo aquele que me parece tão longe agora que escrevo aqui.

É preciso ter claro que ao passo que as redes sociais criam a noção de proximidade que antes não existia, ela não cria as condições materiais reais para isso se dar fora do ambiente eletrônico. É preciso também entender que as pessoas mudam, embora digam que não. É preciso aprender a carregar com serenidade que algumas relações não cabem mais em nossas vidas e nas vidas das outras pessoas.

Eu sigo vivendo no mesmo endereço e acredito do fundo do meu coração que as pessoas que de fato quiserem me ver, virão algum dia aqui. Como eu também irei ver as pessoas que realmente quero ver, ainda que os endereços já não sejam mais os mesmos que guardo anotado em uma agenda velha de minha meninice. E embora eu faça isso menos do que eu deveria e gostaria, não significa que goste menos delas. E, por favor, guardem essa parte.

Hoje, eu torço para ter bons encontros com as pessoas que me são caras, mas sem pressão, sem cobrança excessiva, sem sentimento de posse. Rogo para que a vida me seja generosa e me permita isso repetidamente, sem que eu tenha que brigar por presenças ou implorar por migalhas de atenção. Que tenhamos encontros genuínos, que tardem mas não se percam na urgência dessa vida que acaba tão depressa.¨

T. Angel

https://xtangelx.wordpress.com/2017/02/19/e-o-pra-sempre-sempre-acaba/

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